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maio 21

21 de maio de 1970 – Soyuz 9: pioneira em permanência prolongada

Não Há Dia Sem História

21 de maio de 1970

Soyuz 9: pioneira em permanência prolongada

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No dia 21 de maio de 1970, há 45 anos, dois cosmonautas soviéticos, Andrian Grigoryevich Nicolayev e Vitali Ivanovich Sevastianov, estavam concentrados na guarnição de Tyuratan, Cazaquistão. Eles se preparavam para a primeira experiência de longa permanência no espaço, a bordo da Soyuz 9. Nicolayev e Sebastianov cumpriam um forte programa de condicionamento mental e físico. A engenharia de alimentos do programa espacial tentava descobrir a alimentação correta para cosmonautas em órbita. Eles estavam chegando à conclusão de que a dieta ideal se constituía de, exatamente, 2.800 kcal, com 105 g de proteína, 102 g de gordura, 342 g de carboidratos, e 847 g de água. Exatamente no dia 21 irrompeu um surto de disenteria na guarnição. Os dois não foram afetados. Mas uma ironia é que os engenheiros de alimentos, que sabiam tão bem o que um cosmonauta deve comer, não tenham sido capazes de evitar uma disenteria na guarnição onde os cosmonautas estavam sendo treinados.

Andrian Grigoryevich Nicolayev

Andrian Grigoryevich Nicolayev

O lançamento da Soyuz 9 fora planejado numa reunião no dia 30 de dezembro de 1969 e sua data foi marcada para o dia 22 de abril, aniversário de Lenin. Aí começaram os problemas. A decisão política da escolha da data gerou conflitos com o pessoal técnico. Mas uma seqüência de imprevistos foi causando adiamentos e ela só voou no dia 1 de junho. A fase de treinamentos foi tumultuada. Nicolayev era marido de Valentina Tereskova, a primeira mulher a voar em órbita, o casal era uma celebridade e não havia como mantê-los longe da curiosidade popular. Por outro lado, a KGB procurava manter a operação em sigilo. A central de treinamento era comandada por Nikolai Kamanin, um fundamentalista da causa soviética, obstinado por disciplina e que, há indícios, defendia outra tripulação para aquela missão. No dia 25 de maio Kamanim pegou Nicolayev e Sevastianov fumando. Fumar era terminantemente proibido. Kamanim, furibundo, tentou retirá-los da missão e escalar a tripulação de reserva, mas já era tarde para isso. Além do mais, Sevastianov era aluno da “academia” de Sergey Korolev e um intelecto privilegiado, enquanto Nicolayev, também chamado de “homem de ferro” tinha o organismo mais resistente entre todos os cosmonautas soviéticos – capaz de suportar tranquilamente quatro dias dentro de uma cápsula, sem conhecimento do tempo, uma resistência que provavelmente seria solicitada numa missão de 18 dias.

Vitali Ivanovich Sevastyanov

Vitali Ivanovich Sevastyanov

A escolha da tripulação pode ter sido um fator de sucesso da missão. A grande complexidade dos objetivos acabou forçando os operadores a abrirem mão de confortos para os cosmonautas, em prol de autonomia. Para economizar energia, a nave foi deixada girando, o que causou enjôos. O nível de carbono no ar da cápsula nunca pode ser mantido num nível adequado. As dificuldades foram grandes. Além do mais, não eram experimentalmente conhecidos os efeitos de uma permanência tão prolongada sobre o organismo humano. Nicolayev e Sevastyanov foram, literalmente, cobaias. Ninguém poderia relatar, com absoluta certeza, o que efetivamente poderia ocorrer com eles.

Praticamente toda a tecnologia de longa permanência no espaço, que hoje o homem domina, começou a ser angariada nesta missão Soyuz 9. A decolagem foi no dia 1 de junho de 1970, às 19h00min de Greenwich, e o pouso ocorreu no dia 19 às 11h58min50seg. O tempo total de vôo foi de 17,71 dias. Os americanos estavam experimentando permanências de cinco dias, em média, nas suas duas missões realizadas até então, com sucesso, à Lua. Em abril, a missão Apollo 13 havia sido abreviada para quatro dias, devido à explosão de um tubo de oxigênio, a meio caminho da ida – a euforia pelo regresso, com vida, dos três astronautas americanos era o grande assunto que monopolizava a atenção, e a aventura da Soyuz 9 passou quase despercebida no Ocidente. Hoje, quarenta e cinco anos depois, a Estação Espacial Internacional recebe turmas de visitantes de todas as nacionalidades, com missões diferentes a cumprir. As permanências prolongadas são normais. Esta adaptação do Homo sapiens ao ambiente espacial obviamente não é antropológica – não havendo os que a possibilitam (a cápsula, os mecanismos de manutenção ambiental e toda a parafernália) o homem volta à superfície da Terra e continua a ser um bípede terrestre. Mas é uma evolução notável, inédita na história da humanidade. E isso tudo aconteceu em menos de cinquenta anos.

Milton W.

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