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05 de abril de 1960 – O memorando do Space Task Group (STG)

Não Há Dia Sem História

05 de abril de 1960

O memorando do Space Task Group (STG)

Até que foi um dia tranqüilo, para a época…

No dia 5 de abril de 1960, há 56 anos, o Homo sapiens, depois de 1 milhão de anos de existência, estava a menos de dez anos de deixar um rastro de suas pegadas, além de um pouco de lixo, na superfície poeirenta da Lua. O pouso na Lua e, sobretudo, o retorno dos astronautas sãos e salvos, é um fato antropologicamente ímpar, sem dúvida, mas dentro da astronáutica ele é só um fato emblemático de um contexto de efervescência.

http://en.wikipedia.org/wiki/Space_Task_Group

Muito do que seria necessário dominar, para ter sucesso na ida à Lua, ainda precisava ser testado e treinado, no início dos anos 60. E um bom tanto ainda precisava ser descoberto. A complexa seqüência de manobras, que comporiam a jornada, começava com um lançamento e terminava com um pouso, é verdade, mas ainda que fosse só nisso que se resumisse uma ida à Lua, ainda não haveria condições de fazer a viagem com segurança – não se tinha perfeito domínio nem mesmo sobre a exatidão do local de pouso de uma nave, em 1960. E a solicitação da jornada à Lua não se resumia em apenas um pouso. Eram dois, um deles na Lua. A odisséia começava com o lançamento da Terra e prosseguia com o abandono da órbita em direção à Lua, entrada em órbita da Lua, pouso do módulo lunar, decolagem do ascensor do módulo lunar, acoplamento ao módulo de comando, abandono da órbita da Lua em direção à Terra, reencontro da Terra em posição adequada ao reingresso e, por fim, reingresso. E ainda havia mais um passo: acertar o alvo do pouso com alguma exatidão. Pelo jeito os alvos ainda precisavam ser bem grandes, pois no dia 5 de abril de 1960, o Space Task Group (STG) emitia um memorando com especificações para modificar a cápsula Mercury, adicionando um novo controle no sistema de navegação de reentrada. A modificação visava reduzir a dispersão do ponto de impacto para menos de 10 milhas, quase vinte quilômetros, e previa um cronograma de mais de dois anos para implementar o avanço. Como se pode concluir, a ida à Lua ainda dependia de muito trabalho e o êxito era uma possibilidade ainda bem mais remota.

Esta é a súmula da comunicação do STG:

Preliminary specifications to modify the Mercury capsule by adding a reentry control navigation system. Nation: USA. Spacecraft: Mercury Mark I.

Preliminary specifications were issued by Space Task Group (STG) to modify the Mercury capsule by adding a reentry control navigation system. The modified capsule would obtain a small lifting capability (lift-over-drag ratio would equal approximately 0.26). The self-contained capsule navigation system would consist of a stable platform, a digital computer, a possible star tracker, and the necessary associated electronic equipment. Dispersion from the predicted impact point would be less than 10 miles. The prospective development called for a prototype to be delivered to NASA for testing in February 1961; and first qualified system, or Modification I, to be delivered by August 1961; and the final qualified system, or Modification II, to be delivered by January 1962. STG anticipated that four navigational systems (not including prototype or qualification units) would be required.

Minuteman I

Minuteman I

A técnica do lançamento em si, a parte do foguete, progredia bem, pois a “guerra fria” solicitava testes quase diários de mísseis. Para não deixar esfriar os músculos no ritmo quente da “guerra fria”, a plataforma de lançamentos TL 1 da Base Aérea de Edwards, na Califórnia, realizava, naquele mesmo dia 5 de abril de 1960, o disparo de um míssil Minuteman, na configuração Minuteman 1 AT. Com mais de 16 metros de comprimento e quase dois de diâmetro, e pesando cerca de 30 mil kg, o enorme Minuteman podia alcançar apogeus de mais de 1.300 quilômetros. O alcance e a utilização de combustível sólido não deixavam dúvidas quanto à destinação militar de seu uso. Antes de ser usado para lançar bombas nucleares sobre os russos, porém, ele era mais útil ao desenvolvimento da propulsão a jato. Os cientistas não viam inconveniente nenhum em fazer testes para os militares.

Há indícios de que duas correntes políticas coexistiam no programa aeroespacial norte-americano durante a “guerra fria” e, nem sempre, elas concordavam plenamente. Uma delas estava mais ligada ao Pentágono, trabalhava para a Defesa, tinha horror de soviéticos e explorava a tecnologia e a ciência como instrumentos para enfrentar – e de certa maneira manter vivos – os dragões do “perigo vermelho”. Outra corrente se sentia melhor no ambiente experimental da NASA do que no ambiente pomposo do Pentágono, era descendente dos pioneiros inventores de foguetes, inclinava-se para o uso “puro” da propulsão a jato, estudava sem constrangimentos os êxitos soviéticos e explorava o medo generalizado do “perigo vermelho” para conseguir recursos para seus inventos e pesquisas; mas para conseguir estes recursos, precisavam dos economistas da Defesa, os “McNamaras”. De certa maneira, os políticos precisavam dos foguetes que os cientistas sabiam construir e, do outro lado, os cientistas precisavam dos recursos que os políticos sabiam extrair do orçamento.

X 24C

X 24C

Durante aqueles anos de ouro, ou melhor, de hidrogênio líquido, a coisa funcionava. No entanto, às vezes havia atritos. Uma mostra de que estas duas correntes às vezes sofriam “ignições” ocorreu naquele dia 5 de abril de 1960. Espiões do FBI descobriram, não se sabe como, que os soviéticos estariam tramando construir naves guerreiras que poderiam sobrevoar os EUA acima da atmosfera. Uma concepção totalmente inviável – mesmo que os soviéticos tivessem aventado a possibilidade, conheciam o suficiente de mecânica orbital para não perder tempo com tal impossibilidade. Mas espiões não são engenheiros e políticos não são cientistas. Alguém enfiou a minhoca na cabeça da US Air Force. Surgiu então um projeto de defesa que talvez tenha sido uma das mais esdrúxulas idéias de todo a corrida espacial. Nada menos do que uma nave armada, projetada para patrulhamento, interceptação e ataque “ar-ar”. Chamava-se SAINT, SAtellite INTerceptor. No dia 5 de abril de 1960, Herbert York, encarregado pelo Departamento de Defesa para assuntos de Pesquisa e Engenharia, aprovou o projeto, mas com a condição de que ele fosse tocado com recursos da Air Force, usando o orçamento existente, cortando outros projetos, se preciso fosse. Era o mesmo que desaprovar.

Alguém teve de ir embora com um projeto de baixo do braço. Dois anos mais tarde, o projeto SAINT era definitivamente abandonado. Herbert York (1921-2009) era físico, participara do Projeto Manhattan, e já estivera com Albert Einstein refletindo sobre não proliferação de armas atômicas. Um homem realista.

John Houbolt e a espaçonave LOR (Lunar Orbit Rendezvous)

John Houbolt e a espaçonave LOR (Lunar Orbit Rendezvous)

Outro homem realista era o engenheiro espacial John Cornelious Houbolt (Virgínia, 1919), que naquele mesmo dia 5 de abril de 1960, estava em Nova York, fazendo uma palestra no Encontro Nacional de Aeronáutica da Sociedade de Engenharia Automotiva. Houbolt é apontado como autor de todo o projeto de engenharia da órbita lunar das naves Apollo e dos módulos lunares – o conceito de LOR, Lunar Orbit Rendezvous. Sem as idéias de Houbolt, a ida a Lua jamais teria ocorrido ainda naquela agitada década de 60.

Milton W.

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