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ago 03

Olhos infravermelhos do VISTA revelam 96 novos aglomerados estelares escondidos pelo disco da Via Láctea

Este mosaico mostra 30 dos 96 aglomerados detectados pelo VISTA. Crédito: ESO/J. Borissova

O telescópio de rastreamento em infravermelho VISTA [1], pertencente ao ESO (Observatório Europeu Meridional) no Monte Paranal, deserto de Atacamama, no Chile, ajudou uma equipe internacional de astrônomos a descobrir 96 novos aglomerados estelares abertos escondidos pela poeira cósmica da Via Láctea. Dentro desta equipe trabalharam dois astrônomos brasileiros [2]. Estes conjuntos tênues de estrelas, invisíveis em buscas anteriores, não conseguiram escapar dos detectores infravermelhos extremamente sensíveis do mais poderoso telescópio de rastreamento do céu já construído. O VISTA tem conseguido desvendar o que está escondido pela poeira interestelar. Esta descoberta por si só é um recorde, nunca tantos aglomerados esmaecidos foram encontrados de uma só vez.

Esta notícia surge agora no primeiro aniversário do programa “Variáveis VISTA na Via Láctea” (VVV) [1], uma das 6 campanhas de rastreamento suportadas por este novo telescópio.

Jura Borissova, autora líder da equipe multinacional exclamou:

Esta descoberta sublinha o potencial do VISTA e do programa VVV para encontrar aglomerados estelares, especialmente aqueles que se escondem nas áreas empoeiradas do disco da Via Láctea! O VVV consegue penetrar de forma bem mais profunda que outros rastreamentos de todo-o-céu.

A poeira cósmica é um véu que esconde segredos cósmicos

A maioria das estrelas com mais de 50% da massa do Sol formam-se em grupos chamados aglomerados estelares abertos. Estes aglomerados são os tijolos que compõem as galáxias e são essenciais dentro do processo de formação e desenvolvimento das galáxias similares a Via Láctea. Entretanto, os aglomerados estelares surgem em regiões repletas de poeira cósmica, que absorvem a maior parte da radiação visível emitida pelas estrelas jovens, tornando-as invisíveis à maioria dos telescópios de pesquisa celeste. Assim, agora, o VISTA resolve esta lacuna como seu espelho de 4.1 metros que opera nas frequências na faixa espectral do infravermelho.

Dante Minniti, cientista líder do programa de rastreamento VVV esclareceu:

Nós concentramos nossa busca na direção de zonas de formação estelar conhecidas, focando na busca por exemplos de aglomerados estelares de formação mais recente. Assim, muitos objetos cósmicos interessantes foram descobertos pelos detectores infravermelhos do VISTA, situados  em regiões que nos pareciam vazias de estrelas nos resultados das buscas anteriores, realizadas no espectro da luz visível.

Utilizando um sistema de tratamento de imagens, cuidadosamente desenvolvido, a equipe removeu as estrelas que apareciam em frente de cada aglomerado e contou os membros genuínos do aglomerado. Em seguida, as imagens foram inspecionadas visualmente para se apurar o tamanho do aglomerado. Para os aglomerados que continham uma quantidade maior de estrelas foram feitas outras medições relativas a distância, idade e intensidade do avermelhamento que a sua radiação estelar sofre ao atravessar a poeira interestelar situada entre nós e os aglomerados escondidos.

Radostin Kurtev, membro do time de cientistas explicou:

Descobrimos que a maioria destes aglomerados são diminutos, contendo apenas cerca de 10 a 20 estrelas. Comparados com aglomerados abertos típicos, estes são conjuntos estelares muito ténues e compactos. Como agravante, a poeira que se encontra à frente destes aglomerados reduz seu brilho em 10 000 a 100 milhões de vezes no espectro visível. Isto explica, portanto, a razão de estarem escondidos.

Até agora, apenas 2500 aglomerados abertos foram encontrados na Via Láctea desde a antiguidade. No entanto, os astrónomos estimam que há pelo menos 30 000 escondidos por trás de poeira e gás. Enquanto os aglomerados abertos brilhantes e grandes sejam facilmente reconhecidos, esta é a primeira vez que tantos aglomerados pequenos e pouco brilhantes foram mapeados de uma só vez.

Pode-se inferir deste resultado que estes 96 aglomerados abertos são apenas a “ponta do iceberg”. “Começamos agora a utilizar o software automático mais sofisticado para procurar aglomerados mais velhos e menos concentrados. Estamos confiantes que muitos outros serão rastreados em breve”, finalizou Borissova.

Este trabalho foi publicado no artigo científico  intitulado “New Galactic Star Clusters in the VVV Survey”,publicado na revista da especialidade Astronomy & Astrophysics.

Notas

[1] Desde 2010 o programa “Variáveis VISTA na Via Láctea” (VVV) tem mapeado nas frequências do espectro do infravermelho as zonas centrais da Via Láctea e o plano sul do disco galáctico. Este programa tem um total atribuído de 1.929 horas de tempo de observação através do VISTA a serem utilizadas ao longo de cinco anos.

[2] A equipe multinacional contou com a colaboração de:

J. Borissova (Universidad de Valparaíso, Chile), C. Bonatto (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil), R. Kurtev (Universidad de Valparaíso), J. R. A. Clarke (Universidad de Valparaíso), F. Peñaloza (Universidad de Valparaíso), S. E. Sale (Universidad de Valparaíso; Pontificia Universidad Católica, Chile), D. Minniti (Pontificia Universidad Católica, Chile), J. Alonso-García (Pontificia Universidad Católica), E. Artigau (Département de Physique e Observatoire du Mont Mégantic, Université de Montréal, Canadá), R. Barbá (Universidad de La Serena, Chile), E. Bica (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), G. L. Baume (Instituto de Astrofísica de La Plata, Argentina), M. Catelan (Pontificia Universidad Católica), A. N. Chenè (Universidad de Valparaíso; Universidad de Concepción, Chile), B. Dias (Universidade de São Paulo, Brasil), S. L. Folkes (Universidad de Valparaíso), D. Froebrich (The University of Kent, UK), D. Geisler (Universidad de Concepción), R. de Grijs (Universidade de Pequim, China; Universidade Kyung Hee, Coreia), M. M. Hanson (University of Cincinnati), M. Hempel (Pontificia Universidad Católica), V. D. Ivanov (Observatório Europeu do Sul), M. S. N. Kumar (Universidade do Porto; Portugal), P. Lucas (University of Hertfordshire, UK), F. Mauro (Universidad de Concepción), C. Moni Bidin (Universidad de Concepción), M. Rejkuba (Observatório Europeu do Sul), R. K. Saito (Pontificia Universidad Católica), M. Tamura (Observatório Astronómico National do Japão, Japão) e I. Toledo (Pontificia Universidad Católica).

Fonte

ESO: VISTA Finds 96 Star Clusters Hidden Behind Dust

Artigo Científico

New Galactic Star Clusters Discovered in the VVV Survey

._._.

5 comentários

2 menções

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  1. Cito: – “A busca do conhecimento é algo contínuo ”
    – Não duvidemos.
    Que o Cosmos Vos Proteja; (partilhar assim vale a pena) e que a busca continue ; )

  2. Pedro Costa

    Olá Ricardo, tudo bom?

    Meu nome é Pedro Costa, sou estudante de física de partículas no IFT, e recentemente criei um blog com outros colegas, de outras áreas, para escrevermos sobre os temas que nos interessam e interessem a aqueles que buscam conhecimento.
    Achei seu site muito interessante e gostaria de me comunicar com você, pois também me interesso por astrofísica e cosmologia. Qual área da física você trabalha? Entre em contato comigo pelo meu email.
    Parabéns pelo trabalho realizado no site!

    Cordialmente,
    Pedro.

  3. sylvio

    po, legal cara , nao conhecia o blog, eu sofria para entender os artigos que tem no site da nasa.
    Isso foi um achado para mim
    Parabéns , só falta o lance de “compartilhar” do facebook para divulgar os artigos

  4. ROCA

    A cada nova descoberta, novas dúvidas surgem. A busca do conhecimento é algo contínuo e cada vez mais intrigante.

  5. Lucas

    Bom o artigo , mostra que tem muitos misterios no universo e que não sabemos nem um pouquinho de tudo a nossa volta , fascinante .

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