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Quais as conseqüências ambientais de um impacto de asteróide no oceano?

Olho vivo nos asteróides!

Olho vivo nos asteróides!

É bom vermos que o tema “Deflexão de Asteroides” tem aparecido ocasionalmente nas notícias, graças aos esforços de pessoas como o ex-astronauta Russel Louis ‘Rusty’ Schweickart. Ele acumula esforços tanto como co-presidente da “Força-Tarefa em Defesa Planetária” do Conselho Consultivo da NASA quanto em seu trabalho na entidade sem fins lucrativos, a Fundação B612.

Rusty Schweickart tem se preocupado com as possíveis conseqüências de um impacto de pequeno asteroide, lembrando-nos do evento de Tunguska de 1908, onde 800 quilômetros quadrados da floresta siberiana foram arrasados em um tipo de ataque espacial que pode ocorrer a cada 200/300 anos.

Os asteroides maiores são, obviamente, muito mais perigosos. Embora os impactos com objetos maiores sejam muito mais raros, estes eventos têm a capacidade de exterminar espécies inteiras, como ocorreu há cerca de 65 milhões de anos no famoso evento K/T que culminou no extermínio dos dinossauros. Em seu recente artigo no New York Times, Schweickart explicou que precisamos fazer:

Se nós possuirmos um sistema de detecção e um sistema de deflexão poderemos evitar o mesmo trágico destino. Os observatórios profissionais (e alguns amadores) e os radares já funcionam como um sistema de alerta precoce nascente, trabalhando todas as noites para descobrir e rastrear os assassinos do nosso planeta. Felizmente, sabemos até agora que nenhum dos 903 objetos encontrados até agora representa alguma ameaça séria de impacto nos próximos 100 anos.

No entanto, os asteroides exigem uma vigilância constante. Schweickart nos alerta:

Embora os impactos catastróficos sejam relativamente raros, estima-se que há suficientes objetos que podem estar se dirigindo para o nosso caminho e tal nos obriga a tomar decisões sobre possíveis ações de deflexão a cada década.

A capacidade de deflexão de objetos perigosos é algo que a NASA deveria estar olhando com atenção e o relatório da Força-Tarefa em Defesa Planetária solicita com urgência a concessão de verbas adicionais ao orçamento da NASA. Schweickart recomenda a alocação de um orçamento entre 250 a 300 milhões de US$, acrescentado anualmente a verba da NASA durante os próximos dez anos, que permitiria tanto concluir o levantamento dos asteroides próximos à Terra (NEO) quanto desenvolver a habilidade de defletir os que futuramente apresentem potencial real de perigo. Após 10 anos seria criado um orçamento de manutenção (50 a 75 milhões de US$ por ano), o suficiente para manter-nos alertas quanto a possíveis novas ações.

Impacto na camada de ozônio

Agora, o notável trabalho de Elisabetta Pierazzo (Planetary Science Institute) e equipe sublinha a necessidade da capacidade de deflexão de asteroides. O artigo “Ozone perturbation from medium-size asteroid impacts in the ocean”, publicado em Earth and Planetary Science Letters, [referência: Earth and Planetary Science Letters DOI: 10.1016/j.epsl.2010.08.036 ], se concentra em dois cenários básicos de impacto: asteroides com 500 metros e com 1 quilômetro de diâmetro colidindo com uma região do oceano com 4 km de profundidade. Pierazzo adverte que um impacto oceânico poderia empobrecer significativamente a camada de ozônio protetora por vários anos, resultando em um aumento nos níveis de radiação ultravioleta que tornaria mais difícil para o cultivo de alimentos vegetais (além dos efeitos catastróficos sobre outras formas de vida formas).

Ao cair no oceano o asteróide vai criar mais buracos e problemas do que uma singela cratera…

As simulações atmosféricas criadas por Pierazzo e sua equipe mostram a perturbação global da química da atmosfera superior, que ocorrem quando o vapor de água e os íons de cloro e brometo alteram a camada protetora de ozônio para criar um novo buraco (Ozone Hole). Pierazzo afirmou:

A remoção de um volume significativo de ozônio presente na alta atmosfera por um longo período de tempo pode ocasionar importantes repercussões biológicas na superfície da Terra como conseqüência do aumento na radiação UV-B. Os danos incluem o aumento da incidência do eritema (vermelhidão da pele) e da catarata cortical, mudanças na taxa de crescimento dos vegetais e alterações (mutações) no DNA molecular dos seres vivos expostos.

A intensidade da radiação ultravioleta pode ser expressa pelo índice ultravioleta (IUV), que indica a intensidade da radiação UV na superfície. Os números mais elevados representam níveis onde surgem danos à pele e aos olhos. Enquanto o IUV nível 10 é considerado perigoso para a população, resultando em queimaduras para as pessoas de pele clara, após a exposição a curto prazo, valores com um maior grau (até 18) são ocasionalmente registrados em latitudes equatorianas. O maior valor de IUV já registrado chegou a 20, medido na mais alta altitude no deserto em Puna de Atacama, Argentina.

A camada de ozônio filtra os raios ultravioleta, atuando principalmente nos raios UV-B (comprimento de onda de 280 a 315 nanômetros). Crédito: theozonehole.com

A camada de ozônio filtra os raios ultravioleta, atuando principalmente nos raios UV-B (comprimento de onda de 280 a 315 nanômetros). Crédito: theozonehole.com

Baseando-se no impacto real de um asteróide que atingiu a latitude 30 graus norte, no Oceano Pacífico em janeiro de 2010, as simulações de Pierazzo e equipe demonstraram que um impacto de asteróide com 500 metros de diâmetro resultaria num significativo buraco na camada de ozônio, aumentando os valores do IUV para mais de 20 durante vários meses nas regiões subtropicais do hemisfério norte.

Muito pior ainda é o outro cenário: a queda de um asteroide de 1 km de diâmetro levaria o IUV em determinadas áreas para o crepitante nível 56, ao mesmo tempo aumentando os valores do IUV em mais de 20 pontos dentro de uma faixa de latitudes de 50° tanto para o norte quanto para o sul do equador durante cerca de dois anos. Assim, a faixa afetada pelo incidente no hemisfério norte incluiria tanto Seattle quanto Paris, enquanto que no extremo sul chegaria à Nova Zelândia e Argentina.

“Um nível de 56 nunca foi registrado antes, então não temos conhecimento experimental do impacto que isto pode gerar”, acrescentou Pierazzo. “Certamente iria produzir queimaduras solares muito graves. Nós até poderíamos permanecer abrigados e nos proteger, mas se você sair ao Sol e se expor a luz do dia certamente você iria se queimar. Teríamos que sair somente à noite, após o pôr do sol, para evitar maiores danos.”

Animation_Ozone_Hole

Animação mostra um levantamento da extensão do buraco na camada de ozônio existente no pólo Sul, nos meses de setembro e outubro de 2006. Crédito: theozonehole.com

Nós temos sempre a tendência de representar impactos de asteroides em termos de suas piores conseqüências, como forma de ilustrar a magnitude da ameaça. Mas é frustrante aprendermos que mesmo um impacto superável, como demonstrado nos cenários modelados por Pierazzo e equipe, causaria sérios danos ambientais, mesmo que a perda de vidas humanas não aconteça. Tudo isso pressupõe, também, que o asteróide caia no oceano (na verdade, o cenário mais provável, 2 em cada 3 casos caem efetivamente nos mares). Não há dúvida de que a construção da defesa planetária contra esses impactos é o melhor seguro para o nosso planeta que nós poderíamos criar, reduzindo o risco de potenciais impactos antes que os objetos perigosos se aproximem do nosso planeta.

Para saber mais recomendamos a leitura do artigo que detalha o tema, assinado por Pierazzo et al., “Ozone perturbation from medium-size asteroid impacts in the ocean”, publicado em  Earth and Planetary Science Letters, [ referência: Earth and Planetary Science Letters DOI: 10.1016/j.epsl.2010.08.036 ].

Sugerimos também ler o excelente artigo de Jeremy Hsu em LiveScience: “Asteroid Strike Could Force Humans into Twilight Existence”.

Fontes

  1. Centauri Dreams: Ocean Impacts and Their Consequences
  2. SpacePolicyOnLine.com: Report of the NASA Advisory Council (Ad Hoc Task Force on Planetary Defense)
  3. NYTimes: Humans to Asteroids: Watch Out! por Rusty Schweickart
  4. Nature: NASA to lead global asteroid response
  5. LiveScience: Asteroid Strike Could Force Humans into Twilight Existence por Jeremy Hsu
  6. The Ozone Hole
  7. New Scientist: Ocean asteroid hits will create huge ozone holes por Rachel Courtland

Artigo Científico

“Ozone perturbation from medium-size asteroid impacts in the ocean”, publicado em Earth and Planetary Science Letters, [ referência: Earth and Planetary Science Letters DOI: 10.1016/j.epsl.2010.08.036 ]

._._.

4 comentários

5 menções

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  1. Katia

    Este texto é atual? quando foi editado por favor? Sabem dizer algo sobre o asteróide Aphofis (2034)?

    1. ROCA

      É claro que o texto é atual, pois trata de um trabalho científico, ver aqui: http://dx.doi.org/10.1016/j.epsl.2010.08.036

      A pesquisa é recente e está atualizada.

      Sobre Apophis, leia aqui: http://astropt.org/blog/2013/01/10/asteroide-apophis-nao-vai-bater-em-2036/

      “… o observatório Goldstone observou em radar o asteróide, reviu os cálculos da sua órbita, e excluiu a possibilidade do asteróide bater na Terra em 2036. Jon Giorgini, o cientista responsável pelos novos cálculos, diz mesmo que em 2036 o asteróide irá passar a mais de 25 milhões de quilómetros da Terra.”

  2. André

    Olá ROCA

    Acredito ter havido uma confusão na seguinte passagem

    “como pode muito bem ter ocorrido há cerca de 65 bilhões de anos no famoso evento K/T que culminou no extermínio dos dinossauros. ”

    Abs

    1. ROCA

      André,
      Eu consertei o erro “65 bilhões” e simplifiquei a redação do parágrafo para:

      “Os asteróides maiores são, obviamente, muito mais perigosos. Embora os impactos com objetos maiores sejam muito mais raros, estes eventos têm a capacidade de exterminar espécies inteiras, como ocorreu há cerca de 65 milhões de anos no famoso evento K/T que culminou no extermínio dos dinossauros.”

      Ficou mais claro agora para você?

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