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abr 25

Aquecimento global: massivas erupções vulcânicas foram responsáveis pelo Máximo Térmico Paleoceno-Eoceno de 55 milhões de anos atrás?

Cristais de Zircônio datados de 55 milhões de anos atrás sugerem que massivas erupções vucânicas aqueceram a Terra. Créditos: Vulcão (NOAA) / Zircônio (Svensen et al.)

Cristais de Zircônio datados de 55 milhões de anos atrás sugerem que massivas erupções vucânicas aqueceram a Terra. Créditos: Vulcão (NOAA) / Zircônio (Svensen et al.)

Vamos falar sobre aquecimento global? Há cerca de 55 milhões de anos, as temperaturas globais aumentaram em cerca de 5˚C e assim permaneceram durante 170.000 anos. Sabemos que nesta época milhares de espécies marinhas primitivas se extinguiram. Paradoxalmente, esta extinção marinha coincidiu com uma era de aumento na diversidade das plantas sem precedentes bem como a ascensão dos mamíferos como o ramo animal dominante. Agora os pesquisadores julgam ter descoberto a causa do efeito estufa de 55 milhões de anos atrás: uma enorme série de erupções submarinas pode ter saturado o ar com possivelmente bilhões de toneladas de metano (CH4), sabidamente um gás com capacidade de produzir o efeito estufa com intensidade 60 vezes maior que o dióxido de carbono (CO2).

Distribuição dos continentes, mares e oceanos no Paleoceno-Eoceno, há 55 milhões de anos, quando ocorreu o 'máximo térmico'.

Distribuição dos continentes, mares e oceanos no Paleoceno-Eoceno, há 55 milhões de anos, quando ocorreu o ‘máximo térmico’.

Seguir perseguindo as pistas das causas de extinções em massa bem como o aumento da temperatura global em eras antigas da Terra têm ocupado os pesquisadores ao longo de décadas. E o caso em questão, conhecido como Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (MTPE ou PETM, em inglês), não representa uma exceção.

Durante o Eoceno, a disposição geográfica da Terra era significativamente diferente. Como podemos ver no mapa acima, por exemplo, o Istmo do Panamá não exercia ainda o papel de elo de ligação entre América do Norte e América do Sul, permitindo o livre trânsito das águas entre o Oceano Atlântico e o Pacífico. Por outro lado, a Passagem de Drake ficou obstruída, impedindo o isolamento térmico da Antártida. Estes cenários geográficos, além dos altos níveis de gases causadores do efeito estufa (metano, dióxido de carbono e vapor d’água) na atmosfera, indicam que não havia camadas de gelo importantes, encontrando-se o planeta Terra quase  que integralmente livre de geleiras.

Há 5 anos encontrou-se uma possível resposta a partir de amostras obtidas em perfurações juntamente com dados sísmicos tomados no Mar da Noruega, por coincidência, não muito distante da Islândia, onde as erupções do vulcão Eyjafjallajökull têm atraído a atenção mundial. As amostras e os dados sísmicos locais indicam a presença de crateras submarinas com até 700 quilômetros de diâmetro, sugerindo que a área sofreu uma convulsão vulcânica em uma escala que supera qualquer outro evento já presenciado na história da humanidade. Estas crateras também estão localizadas em áreas que contêm enormes reservas de metano.

Assim, o geólogo Henrik Svensen, da Universidade de Oslo e seus colegas têm estudado o conteúdo destas amostras de perfuração desde sua descoberta. Eles se concentraram em particular, no estudo de pequenos cristais de zircônio destes sedimentos. Com base na análise de isótopos de urânio e chumbo contidos nos cristais (conforme publicaram no Jornal da Sociedade de Geologia), os pesquisadores concluíram que os cristais foram formados 55 milhões de anos atrás, precisamente quando começou o PETM. “Ainda me lembro com emoção”, disse Svensen, quando o seu colega e co-autor Fernando Corfu entrou em contato com ele para informar que tinha estimado a idade do zircônio destas amostras do Mar da Noruega.

Em sua tese, Svensen e seus colegas argumentam que o magma que formou as crateras aqueceu os sedimentos subjacentes, que liberou grandes quantidades de metano. Esse metano borbulhou até a superfície e se dispersou na atmosfera, criando um poderoso efeito estufa, que a Terra levou entre 120.000 e 170.000 para se recuperar (veja no gráfico abaixo que mostra as variações climáticas no últimos 65 milhões de anos).

Gráfico mostra as mudanças climáticas globais nos últimos 65 milhões de anos. Notem o repentino aquecimento global devido ao Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (“PETM”, em inglês) há 55 milhões de anos, destacado com a seta.

Gráfico mostra as mudanças climáticas globais nos últimos 65 milhões de anos. Notem o repentino aquecimento global devido ao Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (“PETM”, em inglês) há 55 milhões de anos, destacado com a seta.

É um magnífico estudo das forças que atuam que em uma escala impressionante, Matthew Huber, disse o pesquisador de dinâmica climática da Universidade Purdue, em West Lafayette, Indiana. Os dados dão-nos agora um argumento convincente, disse ele, “É difícil estipular a data exata de um evento que ocorreu há tanto tempo”.

No entanto, “Não sejamos tão rápidos”, disse Alan Jay Kaufman, um geoquímico da Universidade de Maryland, College Park. A pesquisa mostra evidências que as erupções vulcânicas coincidiram com o aquecimento global durante o MTPE, mas lembrou que “isto poderia ser uma das causas, outras possíveis origens permanecem ainda não testadas”. O problema é que seus dados não quantificam a quantidade de metano que teria sido liberado a partir dos sedimentos, afirmou Kaufman, então a idéia de uma expulsão massiva ainda permanece um ponto a esclarecer.

Klaus Keller, geocientista da Pennsylvania State University, em University Park, concorda com os cientistas e disse que o desafio seguinte será determinar se as explosões foram  realmente a fonte de gases do efeito estufa que originaram o Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno. “Muitas das perguntas mais interessantes e importantes ainda se mantêm”, disse Keller.

Para saber mais detalhes sobre o MTPE sugerimos ler na wikipédia: Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno

Fontes

Science:

Journal of the Geological Society (Londres): Zircon dating ties NE Atlantic sill emplacement to initial Eocene global warming

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