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jul 28

Foram os cometas os verdadeiros culpados pelo grande bombardeamento na Terra e Lua?

LHB (Late Heavy Bombardment). Crédito: Julian Baum

Impressão artística do "Último Grande Bombardeamento" (LHB - Late Heavy Bombardment). Crédito: Julian Baum

Foram os cometas gelados e não os asteróides rochosos os objetos responsáveis pelo tremendo bombardeio que a Terra e a Lua sofreram há cerca de 3,85 bilhões de anos, sugere novo estudo sobre rochas antigas da Groelândia. O trabalho sugere que grande parte da água existente na Terra foi, de fato, trazida aqui por cometas.

“Nós conseguimos ver crateras na superfície da Lua a olho nu, mas ninguém sabia ao certo que fenômenos as causaram. Foram objetos rochosos, corpos de ferro, ou de gelo?” perguntou Uffe Gråe Jørgensen, astrônomo do Instituto Niels Bohr em Copenhagen, Dinamarca. “É interessante descobrir agora evidências que apontam para objetos compostos de gelo”.

Quais foram os culpados pelo último grande bombardeamento?

Protoplaneta por Mark A. Garlick

Jovem planeta sofrendo bombardeamento por Mark A. Garlick

As evidências existentes indicam que a Terra e a Lua se formaram há cerca de 4,5 bilhões de anos. Mas quase todas as grandes crateras na Lua datam de um período mais recente, denominado “Último Grande Bombardeamento” (LHB – Late Heavy Bombardment), entre 3,8 e 3,9 bilhões de anos atrás, quando aproximadamente 100 trilhões de toneladas de rocha e gelo colidiram com a superfície lunar. Sabemos que a Terra foi também atingida brutalmente pelos detritos, embora os movimentos das placas tectônicas em nosso irrequieto planeta tenham definitivamente apagado essas cicatrizes.

Para descobrir se os culpados principais do bombardeamento foram os asteróides ou os cometas, Jørgensen decidiu medir os níveis do elemento irídio (Iridium) em rochas terrestres antigas. O irídio é muito raro na superfície da Terra porque está quase todo ligado ao ferro e afundou-se para o núcleo da Terra pouco depois da formação do planeta. Por outro lado o irídio é relativamente comum nos cometas e nos meteoritos.

Rochas ou gelo?

A cratera Oresmo tem 76 km de diâmetro e foi criada na era Nectarian pelo último grande bombardeamento. Esta cratera fica no lado oculto da Lua a noroeste do polo sul lunar.

A cratera Oresme tem 76 km de diâmetro e foi criada na período Nectárico durante o último grande bombardeamento. Esta cratera fica no lado oculto da Lua a noroeste do polo sul lunar.

A sua equipe calculou a quantidade de irídio que os asteróides teriam deixado na Terra e na Lua, quando comparada com a dos cometas. Tendo em vista que os cometas têm elementos mais voláteis e velocidades de impacto maiores, graças às suas órbitas mais alongadas em torno do Sol, criariam gigantescas plumas durante o impacto, permitindo que mais irídio escapasse para o espaço do que durante impactos de asteróides.

A equipe previu que o bombardeamento por asteróides teria deixado níveis de irídio cerca de  18.000 e 10.000 partes por trilhão nas rochas na Terra e na Lua, respectivamente, enquanto os mesmos valores para o bombardeamento cometário seriam por volta dos 130 para a Terra e 10 para a Lua.

Rochas antigas trazidas pelas missões Apollo da NASA já confirmaram que os níveis de irídio lunar rondam as 10 partes por trilhão ou menos. Para descobrir o valor terrestre, a equipe de Jørgensen investigou amostras de algumas das rochas mais antigas da Groenlândia, com uma idade por volta dos 3,8 bilhões de anos e pediu a um laboratório japonês para determinar os seus níveis de irídio com uma precisão jamais alcançada até então. Elas continham níveis de irídio de 150 partes por trilhão! Assim, estes valores sugerem fortemente que os cometas, e não os asteróides, causaram o violento bombardeamento no período Hadeano da história da Terra e o correspondente período Nectárico na Lua.

Plumas gigantescas

Se for desse modo, a equipe de Jørgensen calculou que caíram cerca de 3.400 toneladas de material gelado cometário por cada metro quadrado na Terra. Em torno da metade deste material cometário poderia sido ricocheteado de volta para o espaço em plumas gigantes, deixando para trás aproximadamente um bilhão de quilômetros cúbicos da água dos cometas.

Esta é uma quantidade da ordem de grandeza dos oceanos da Terra, embora não seja ainda claro para nós se já existia água na Terra em abundância, devido a reações químicas na Terra primordial, antes do bombardeamento. Esse assunto foi explorado em artigo anterior da New Scientist: “A água da Terra foi gerada em casa e não no espaço” (Earth’s water brewed at home, not in space).

Michael Mumma, especialista em cometas do Goddard Space Flight Center da NASA, que não esteve envolvido diretamente com essa pesquisa, diz que o novo trabalho é interessante:  “O artigo irá certamente fomentar um intenso debate.”

Fontes e Referências

New Scientist:

Icarus Journal: The Earth-Moon system during the Late Heavy Bombardment period por Uffe Gråe Jørgensen, Peter W.U. Appel, Yuichi Hatsukawa, Robert Frei, Masumi Oshima, Yosuke Toh e Atsushi Kimura Icarus (10.1016/j.icarus.2009.07.015)

Science Magazine: The Solar System’s Big Bang [Finding signs of a lost beginning] por Ron Cowen February 14th, 2009; Vol.175 #4 (p. 26)

ESA: Oresme: Signs from the Lunar Heavy Bombardment

Space.com:

ScienceDaily: Meteoroid Bombardment May Have Made Earth More Habitable, Says Study

Cosmos Magazine: Did our Solar System once have another planet? por Ker Than

1 comentário

7 menções

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  1. carla

    nao quero isso

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