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jul 27

Imagens restritas que mostram a mudança climática no Ártico foram liberadas pelo governo de Obama

Variação da camada de gelo no mar de Beaufort. Crédito: USGS

Variação da camada de gelo no mar de Beaufort. Crédito: USGS

Na semana passada o governo dos EUA liberou para o público mais de 1.000 imagens classificadas do Oceano Ártico que têm sido usadas de forma restrita pelos cientistas para estudar os impactos da mudança climática terrestre. As imagens restritas foram gravadas por satélites espiões e como parte do programa Medéia, até agora o acesso só era permitido aos cientistas que requisitavam imagens de regiões ambientalmente sensíveis da Terra. As imagens foram geradas e armazenadas pela inteligência americana, mas a administração anterior do governo Bush só as liberava para os cientistas com a condição de não revelá-las ao público, ou seja, as imagens estavam classificadas com “impróprias para a liberação para o público”. Em julho de 2009 a Academia Nacional de Ciências recomendou que a administração do presidente Barack Obama retirasse a classificação restrita das fotos, e tal demanda foi executada em apenas algumas horas depois desta solicitação.

Fantástico acervo!

Perda da camada de gelo na geleira de Bering. Crédito: USGS

Perda da camada de gelo na geleira de Bering. Crédito: USGS

Essas dramáticas imagens estão disponíveis através da US Geological Survey. Mais de 700 imagens mostram notáveis variações nas camadas de gelo nos últimos anos em 6 regiões sensíveis do Oceano Ártico que se somam a mais 500 imagens de 22 regiões nos EUA.

E mais discussões ecológicas inócuas…

Como era de esperar em temas ecológicos, há questionamentos sobre a autenticidade das imagens, muitos blogs estão mostrando opiniões variadas, alegam-se teorias de conspiração, desconhecemos o que está por trás dessa decisão política, quais as intenções do governo Obama em relação a esse tema, o que pretende a USGS com essa divulgação e outras discussões e críticas acaloradas estão surgindo, as quais acabam levando a nenhum resultado. Não temos a intenção de comentá-las ou julgá-las, pois não há surpresas aqui

O que os cientistas e especialistas têm informado sobre o Ártico?

Comparação da capa de gelo no Ártico no mês de setembro, nos anos de 2007 e 2005.

Comparação da capa de gelo no Ártico no mês de setembro, nos anos de 2007 (4,1 milhões de km²) e 2005 (5,3 milhões de km²). Crédito: National Snow and Ice Data Center.

Em setembro de 2007 os cientistas da Universidade do Colorado que trabalham no Boulder’s National Snow and Ice Data Center declararam que a extensão da capa de gelo do Ártico havia atingido seu mínimo em 16 de setembro de 2007, o menor valor desde que a monitoração por satélite começou há 30 anos (1979). O mínimo de 2007 foi estimado em 4,13 milhões de km² e bateu largamente o recorde anterior de 2005, que foi calculado em 5,32 milhões de km². Esses números são alarmantes se compararmos com a média de 1979 a 2000, bem superior aos mínimos do século XXI: 6,74 milhões de km².

O Oceano Ártico em geral atinge seu mínimo de extensão em setembro e seu máximo em março. Os pesquisadores da Universidade do Colorado usaram nesse levantamento os dados fornecidos por satélites da NASA, da National Oceanic and Atmospheric Administration e do U.S. Department of Defense, assim como os dados de satélites canadenses e de observatórios climáticos.

Em setembro de 2008 os cientistas da NASA (Goddard Space Flight Center em Greenbelt, Mariland) detectaram um leve aumento na extensão mínima que passou para 4,68 milhões de km², tornando-se a segunda marca histórica, batendo o resultado de 2005, representado na imagem abaixo.

O oceano Ártico em 2008, 2007 e a média dos mínimos medidos no período 1979-2000

O oceano Ártico em 2008, 2007 e a média dos mínimos medidos no período 1979-2000

Em janeiro de 2009 foi divulgado o relatório Synthesis and Assessment Product 1.2: Past Climate Variability and Change in the Arctic and at High Latitudes assinado por 37 cientistas e liderado pelo U.S. Geological Survey (USGS).

O grupo da USGS publicou as seguintes conclusões sobre o Oceano Ártico:

  • Analisados em conjunto, o tamanho e velocidade da perda da camada de gelo no mar no verão ao longo das últimas décadas é incomum se compararmos com eventos similares dos últimos milhares de anos, especialmente se considerarmos que as mudanças orbitais da Terra no mesmo período têm naturalmente provocado o contrário, reduzindo o degelo.
  • O aquecimento sustentado de alguns graus (entre 2,2ºC e 7,3ºC acima da média do século 20) é provavelmente suficiente para causar o desaparecimento por completo da camada de gelo da Groelândia, o que poderá elevar o nível oceânico em níveis perigosos.
  • A taxa atual de influência humana no aquecimento do Ártico é comparável aos picos naturais do histórico documentado do passado climático terrestres. Contudo, algumas projeções da mudança climática induzida pela humanidade poderão exceder a variação natural documentada.
  • O passado climático terrestre nos indica que quando os níveis críticos do sistema climático são ultrapassados, a mudança climática pode ser rápida e de grande porte. Não podemos descartar que a indução humana no clima terrestre poderá possivelmente acionar tais eventos no futuro.
Esta animação composta de mosaicos obtidos pelo satélite Envisat da ESA nos mostra o Oceano Ártico em 2005, 2006 and 2007 e ressalta as variações no gelo polar. As regiões sem gelo aparecem em cinza-escuro e o gelo do mar do Ártico aparece em cinza-claro. Cada mosaico anual foi gravado entre 01 e 11 de setembro de cada ano e a resolução da imagem é 1 km. Cada mosaico anual contém a composição de 200 imagens do EnviSat processadas pelo programa de observação terrestre G-POD (Grid Processing On Demand) operado pela ESA/ESRIN

Esta animação composta de mosaicos obtidos a partir de 600 imagens geradas pelo satélite Envisat da ESA nos mostra o Oceano Ártico em 2005, 2006 and 2007 e ressalta as variações no gelo polar. As regiões sem gelo aparecem em cinza-escuro e o gelo do mar do Ártico aparece em cinza-claro. Cada mosaico anual foi gravado entre 01 e 11 de setembro de cada ano e a resolução da imagem é 1 km. Cada mosaico anual contém a composição de 200 imagens do EnviSat processadas pelo programa de observação terrestre G-POD (Grid Processing On Demand) operado pela ESA/ESRIN

Devemos lembrar que além dos órgãos americanos existem outras entidades globais independentes que monitoram o clima terrestre. Um bom exemplo é o satélite EnviSat da Agência Espacial Européia (ESA) que tem habitualmente nos mostrado imagens da evolução climática terrestre ao longo dos anos, como ilustrado no mosaico de setembro de 2007, acima.

Avanço tecnológico: imagens da Terra em alta resolução

Variação da camada de gelo em Barrow, Alasca, EUA de 2006 a 2007 (imagem altamente polêmica que está sendo criticada). Crédito: US Geological Survey

Variação da camada de gelo em Barrow, Alasca, EUA de 2006 a 2007 (imagem altamente polêmica que está sendo criticada em diversos blogs). Crédito: US Geological Survey

Os cientistas solicitam as imagens tomadas pelos satélites da inteligência do EUA pois a sua resolução é muito maior, em vários casos, que as imagens disponíveis pelos outros satélites de observação global. Segundo a agência de notícias Reuters, há imagens que atingem a resolução de 1 metro e isto representa um gigantesco avanço em relação as imagens anteriores disponíveis que têm uma resolução entre 15 e 30 metros.

Resolução comparável a das sondas de Marte e da Lua?

Esta belíssima imagem mostra uma região com dunas em Marte, que está sofrendo o degelo devido a mudança da estação. As dunas aparecem em vermelho escuro. A resolução é de 31,7 cm x pixel (objetos de 94 cm são visíveis). Crédito HiRise/Universidade do Arizona, Tucson, EUA

Esta belíssima imagem mostra uma região com dunas em Marte, que está sofrendo o degelo devido a mudança da estação. As dunas aparecem em vermelho escuro. A resolução é de 31,7 cm x pixel (objetos de 94 cm são visíveis). Crédito: HiRise/Universidade do Arizona, Tucson, EUA

Para efeito de comparação essa resolução de 1 metro é similar a resolução atingida pela sonda orbital MRO em Marte (Mars Reconnaissance Orbiter), processadas pelo programa HiRise da Universidade do Arizona em Tucson, EUA, em operação desde 2006. Em breve a LRO na Lua (Lunar Reconnaissance Orbiter), estará nos enviando imagens lunares também com essa resolução, quando esta atingir a sua órbita operacional na altura de 50 km em relação a superfície lunar, em agosto de 2009.

Conclusão?

As novas imagens estão agora disponíveis para o público, o que mostra a ‘transparência’ do governo Obama, mas a forma como elas serão interpretadas, comparadas ou utilizadas depende de quem as vê.

Fontes e Referências:

A ScienceDaily tem vários interessantes artigos sobre o tema, desde 1998, vale a pena navegar aqui:

Universe Today: Declassified Ice Loss Images por Nancy Atkinson

ESA (Agência Espacial Européia):

Reuters: U.S. releases unclassified spy images of Arctic ice

USGS

TrueSlant blog: More of the Arctic ice photos kept secret by the Bush Administration

Guardian.co.uk: Revealed: the secret evidence of global warming Bush tried to hide [Photos from US spy satellites declassified by the Obama White House provide the first graphic images of how the polar ice sheets are retreating in the summer. The effects on the world’s weather, environments and wildlife could be devastating]

Scientific American: Arctic Intelligence

2 menções

  1. A Terra vista do Espaço: a Inglaterra (quase) 100% coberta de neve! « Eternos Aprendizes

    […] ou positiva pode ter uma poderosa influência sobre o clima da metade norte do globo terrestre e no comportamento da formação do gelo marítimo no oceano Ártico. Neste gráfico vemos o comportamento diário (últimos 120 dias) do 'índice de oscilação do […]

  2. Administração Obama libera imagens restritas « O Menino que não Machuca

    […] o artigo inteiro aqui. enquanto isso, será que o Alexandre Garcia continua acreditando em suas próprias […]

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