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jul 16

Novo mapa de Vênus sugere um passado vulcânico com presença de oceanos

MAPA DE VÊNUS: O primeiro mapa térmico do hemisfério sul de Vênus no infravermelho, detalhado pelo instrumento VIRTIS (Visible and Infrared Thermal Imaging Spectrometer) da sonda Venus Express. Créditos: ESA/VIRTIS/INAF-IASF/Obs. de Paris-LESIA

MAPA DE VÊNUS: O primeiro mapa térmico do hemisfério sul de Vênus no infravermelho, detalhado pelo instrumento VIRTIS (Visible and Infrared Thermal Imaging Spectrometer) da sonda Venus Express. Créditos: ESA/VIRTIS/INAF-IASF/Obs. de Paris-LESIA

Vênus é muitas vezes citado como o planeta irmão da Terra, uma vez que ambos têm tamanhos similares. Mas as semelhanças talvez não se limitem a isso. Um novo mapeamento de Vênus feito pela Venus Express em infravermelho nos sugere que nosso vizinho mais próximo foi uma vez mais parecido com a Terra, com atividades tectônicas de placas e um oceano profundo. Enquanto as imagens por radar tinham nos dado um vislumbre da superfície coberta por densas nuvens de Vênus, agora temos o primeiro mapa que assinala a composição química das rochas. Os novos dados são consistentes com as suspeitas que os platôs elevados (as superfícies mais altas) em Vênus são, na verdade, antigos continentes que em passado remoto foram circundados por oceanos e que sofreram atividade vulcânica intensa.

“Isto não é uma prova, mas tem consistência. Tudo que podemos realmente dizer no momento é que as rochas nos platôs (planaltos) parecem diferentes das demais”, comentaram Nils Müller do JPIPRG (Joint Planetary Interior Physics Research Group) da universidade de Münster e DLR de Berlim, líder do projeto de levantamento cartográfico de Vênus.
O mapa venusiano mostra o hemisfério sul em um mosaico composto de mais de 1.000 imagens individuais, gravadas entre maio de 2006 e dezembro de 2007. Uma vez que o planeta Vênus está coberto por nuvens, as câmaras normais óticas não podem ver a superfície, mas a Venus Express usou as faixas de onda do infravermelho para contornar esta limitação. Assim, foi o instrumento VIRTIS (Visible and Infrared Thermal Imaging Spectrometer) da Venus Express que capturou a radiação infravermelha originada pela superfície venusiana durante suas órbitas noturnas sobre o hemisfério sul de Vênus.

As rochas parecem diferentes devido à quantidade de radiação infravermelha que irradiam para o espaço, semelhante ao modo como uma parede aquece durante o dia e liberta o seu calor à noite. Assim, o princípio básico no qual o levantamento se apóia está no fato que diferentes tipos de rochas irradiam diferentes quantidade de calor nas freqüências do espectro infravermelho devido a uma característica intrínseca dos materiais: a emissividade. As oito sondas russas enviadas a Vênus nos anos 70 e 80 pousaram longe das terras altas e encontraram apenas rochas tipo-basalto por baixo de seus trens de pouso. O novo mapa mostra que as rochas dos platôs de Phoebe e Alfa Régio diferem das demais regiões sua coloração é mais clara e são geologicamente mais antigas que a maior parte do planeta. Na Terra, as rochas mais claras no infravermelho são em geral o granito que forma os continentes.

“Se existe granito em Vênus, então deverá ter havido oceanos e placas tectônicas no passado [de Vênus],” diz Müller.

O granito é formado quando rochas antigas, de origem basáltica, são empurradas para dentro do planeta pelo deslocamento dos continentes, um processo que chamamos tectônica de placas. A água combina quimicamente com o basalto para formar o granito (que é leve) e essa mistura reaparece na superfície, ejetada pelas erupções vulcânicas.

Müller destaca que o único modo de termos certeza se os platôs de superfícies altas são de fato continentes antigos é enviar para lá uma sonda com capacidade para pousar em Vênus. Ao longo do tempo, a água de Vênus foi perdida para o espaço, mas poderá ter Vênus ainda alguma atividade vulcânica? Não temos evidências disso. Temos que levar em consideração que as medições a partir da radiação infravermelha são muito sensíveis as variações de temperatura. Contudo, em todas as imagens os cientistas observaram variações na faixa de apenas 3ºC a 20ºC. Assim não foram encontradas diferenças maiores em temperaturas, características da presença de fluxos ativos de lava.

Embora a Venus Express não tenha observado quaisquer evidências de atividade vulcânica atual, Müller não descarta esta possibilidade. “Vênus é um grande planeta, aquecido por elementos radioativos no seu interior. Ele deveria ter tanta atividade vulcânica quanto a Terra,” ele afirma. De fato, algumas áreas realmente parecem ser compostas de rochas mais escuras, o que sugere a presença de fluxos de lava relativamente recentes.

O novo mapa oferece aos astrônomos outra ferramenta na sua busca de entender as razões de Vênus ser tão semelhante à Terra em tamanho e mas ter evoluído de modo tão distinto.

Fontes e referências:

ESA: New map hints at Venus’ wet, volcanic past

SPACE.com: Oceans on Ancient Venus, Study Suggests

PHYSORG.com: New map hints at Venus’s wet, volcanic past

Universe Today: New Map Hints at Venus’ Wet, Volcanic Past por Nancy Atkinson

Astronomy.com: New map hints at Venus’ wet, volcanic past [The new map shows that the rocks on the Phoebe and Alpha Region plateaus are lighter in color and look old compared to the majority of the planet]

Sobre a Venus Express:

Impressão artística da sonda Venus Express. Crédito: ESA (imagem por AOES Medialab)

Impressão artística da sonda Venus Express. Crédito: ESA (imagem por AOES Medialab)

Página da ESA
NSSDC (NASA)
Wikipedia


3 menções

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